O que é um estudo de autodepuração?

 Ao longo das ultimas décadas, os seres humanos vem interferindo negativamente nas águas naturais com despejos biológicos e químicos. Estes despejos causam modificações nos ecossistemas aquáticos (biota e microbiota), ocasionando problemas ambientais e de saúde.

As substâncias biológicas e químicas lançadas no corpo hídrico tendem a ser biodegradadas de forma natural pelos microrganismos, mas quando lançadas em excesso causam um desequilíbrio entre a produção e o consumo de oxigênio, tornando mais demorada e complexa a degradação destes compostos.

O processo natural de recuperação de um corpo hídrico que recebe estes lançamentos em excesso de material biodegradável é chamado de autodepuração, no qual cargas poluidoras, de origem orgânica, lançadas em um corpo d’água são neutralizadas. 

De acordo com Von Sperling (1996):

 “a autodepuração pode ser entendida como um fenômeno de sucessão ecológica, em que o restabelecimento do equilíbrio no meio aquático, ou seja, a busca pelo estágio inicial encontrado antes do lançamento de efluentes, é realizada por mecanismos essencialmente naturais”. 

A decomposição da matéria orgânica por microrganismos aeróbios corresponde a um dos mais importantes processos integrantes do fenômeno da autodepuração. Esse processo é responsável pelo decréscimo nas concentrações de oxigênio dissolvido na água devido à respiração dos microrganismos, que por sua vez decompõem a matéria orgânica. A quantidade de oxigênio dissolvido na água necessária para a decomposição da matéria orgânica é denominada de DBO. Ou seja, a DBO é um indicativo da quantidade de oxigênio molecular requerida pelas bactérias para a decomposição da matéria orgânica presente na água.

ZONAS DE AUTODEPRAÇÃO

Durante o processo de autodepuração, é possível identificar, ao longo do trecho, 4 zonas no qual as concentrações de DBO e oxigênio dissolvido (OD) variam consideravelmente, além de outras substâncias, como: nitrogênio e fósforo.

A figura 1 ilustra perfeitamente como estas variações de concentrações afetam diretamente a vida aquática e a biota em cada uma das zonas.

Figura 1 – Zonas de autodepuração e os tipos de microrganismos em cada zona.

Diagrama ilustrativo do processo de autodepuração de um curso de água após uma descarga poluente, mostrando as diferentes zonas de degradação, as alterações nos tipos de organismos e o gráfico com as curvas de oxigénio e DBO.

Fonte: Braga et al, 2005. 

Zona de águas limpas

A primeira zona identificada, é a de águas limpas, zona a montante do ponto de lançamento do efluente no corpo receptor. Nesta zona, o efluente irá se misturar com a água do corpo receptor, e com isso teremos uma nova concentração no ponto, denominada: concentração de mistura.

Em rios considerados limpos ou relativamente limpos, as concentrações de DBO e OD se aproxima de algo em torno de 3,0 a 4,0 mg/L em termos de DBO, e cerca de 7,0 a 9,5 mg/L de oxigênio dissolvido (depende da altitude e temperatura).

As concentrações do efluente antes do ponto de mistura podem variar bastante dependendo do tipo de grau de tratamento que o mesmo sofreu. Os estudos e trabalhos realizados pela H2O Engenharia, mostraram que, em termos de concentração de DBO, as variações observadas foram de 20,0 a 90,0 mg/L. Já em termos de OD, as variações de concentrações foram de 0,1 mg/L (pós processos anaeróbios) a 2,0 mg/L (processos aeróbios).




Zona de degradação

Após percorrer um determinado trecho no corpo receptor após o seu lançamento, o efluente passa a se dispersar no meio aquático de forma mais significante, diminuindo o consumo de oxigênio dissolvido e aumentando a concentração de DBO.

Embora a diversidade bacteriana se diminua, em função da diminuição do consumo de oxigênio, há a resistência de alguns deles aos poluentes.

Além disso, nesta zona, o fundo do corpo receptor permanece em condições anaeróbias, fazendo com que ocorra a produção de gás sulfídrico, potencial gerador de mau odor.

Zona de decomposição ativa

Na zona de decomposição ativa, os microrganismos decompositores começam a predominar no ambiente, e o ecossistema começa a se organizar. Nesta zona, a qualidade da água está em seu estado mais deteriorado.

Normalmente, as zonas de degradação apresentam alterações nas cores de suas águas (mais escuras). Há também, o depósito de lodo no fundo do corpo receptor, havendo a diminuição de bactérias e aumento de protozoários.

Zona de recuperação

Nesta zona, a concentração de oxigênio dissolvido na água começa a se recuperar, se elevando a níveis próximos a zona de águas limpas, isto porque, o oxigênio utilizado pelas bactérias é recomposto através da rearação. Além disso, há processos físicos que ocorrem ao longo do trecho que pode fazer com que a concentração de OD se eleve ainda mais, como por exemplo, as turbulências e as velocidades causadas pela morfologia do rio ou córrego. Como consequência, há uma diminuição significativa na concentração de DBO na água.

Ao final do processo ocorrido na zona de recuperação, o corpo receptor passa a apresentar, praticamente, os mesmos níveis de concentrações verificados na zona de águas limpas, voltando ao equilíbrio natural do corpo receptor.

Em resumo, a autodepuração pode ser entendida como um fenômeno decorrente da associação de vários processos de natureza física (diluição, sedimentação e reaeração atmosférica), química e biológica (oxidação e decomposição).

Toda essa dinâmica nos rios pode ser avaliada através de estudos de autodepuração, com o emprego de modelos matemáticos adequados aos estudos que se desejam e podem ser feitos para a DBO ou para nutrientes e coliformes.

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Até o próximo artigo!

Luiz Fernando Iervolino – H2O Engenharia